17.10.05

Sêo Dialino

 
Meu avô por parte de mãe conheci já tinha vinte anos.

Ele era caminhoneiro e numa dessas foi e nunca mais voltou. A velha história do marido que vai ali na padaria comprar cigarros e volta dali três meses, com a diferença que sêo Dialino foi pra Recife e voltou dali trinta anos. Alma inquieta e um caminhão.

Quando deu de procurar os filhos, minha mãe e meus tios encontrou todos mais ou menos onde deixou, na mesma cidadezinha em Goiás - e se um ou outro deu de ir pra Goiânia não foi assim tão difícil encontrar depois. E na verdade minha surpresa foi perceber que rancor não tinham, e esperavam mesmo que ele ainda voltasse, de um jeito ou de outro. Sabiam que ele ia voltar. Trinta anos. Porque afinal ninguém se deu o trabalho de procurá-lo e ele também nunca se deu o trabalho de cobrir seus rastros, como fui descobrir mais tarde que meu pai - meu pai, que de certa forma pouco tinha a ver com toda a história - no começo do relacionamento com a minha mãe descobriu sua passagem em algumas cidades do Paraná.

E quando ele voltou eu tinha vinte anos e queria fugir dali.

Ele parecia saber de tudo que aconteceria na minha vida.

Me disse que não sabia mais viver em um lugar só, sentia a eminência de alguma coisa que na verdade nunca acontecia, uma espécie de desespero daquele que dorme a céu aberto em região de onça; não se sentia bem-vindo em lugar nenhum. Me deu uma bússola que guardava com ele desde mais ou menos a idade que tu tem agora: nunca me deu nenhum norte, quem sabe você faz uma história diferente.

E aí foi embora, outra vez, despedindo-se dos filhos e dos netos e dizendo que ainda voltava qualquer dia desses. Alma inquieta e um caminhão. Se ainda vivo está com 84 anos perambulando de cidade em cidade. Não sei.