29.7.05

Manhã, quinta-feira

 
(Rir, pra não chorar, pra não dar um soco na parede. Fingir que tudo é muito simples e muito normal.)

- Eu não sou idiota.
- Eu não disse que você era.

Cigarro, cigarro. Como é que se respira mesmo? E minha mão fechando assim, o punho cerrando assim, tão normal? Pá, um soco na cara, ia ser tão bem dado, antes eu não socasse quem usa óculos, mas nem me importo, problema é outro. Óculos não quebra com um soco meu. Não com o meu, pelo menos.

- O que você veio fazer aqui?
- Eu vim com a Gisele.
- E por que não foi embora com ela também?
- Resolvi ficar mais um pouco.
- Por quê?

Punho cerrado, vinte, trinta, setenta centímetros até o rosto dele. Era só um movimento, ligeiro. Eu não preciso de tanta força, eu só preciso ser rápido. Ele é mais baixo que eu. Meio afeminado. Cínico. Deu de ombros.

- Por nada.

Por nada. Por nada?

- E depois vai sumir, outra vez?

Que sumisse. Cínico, deu de ombros. Um soco, um só? Uns quatro?

- E a Paula?
- Que tem ela?
- O que ela acha de você aparecer e sumir, aparecer e sumir?
- Não acha nada. A Paula é minha amiga.

Telefone. Paula. Sim, vou tentar almoçar em casa. Logo eu tô chegando. E voltando, punho cerrado, telefone de volta no bolso da camisa.

- Quando você vai embora?
- Não sei.

Que tal agora, já?

- A Paula sabia que você vinha?
- Sabia.
- E não falou nada?
- Falou que tem feito frio, pra eu trazer roupa quente.

Filho da puta, ele. Covarde, eu. Fui pra casa almoçar.